terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Chimarrão!...

O mate, ou chimarrão não é uma bebida.
Bueno, sim, pois é um líquido e entra pela boca, porém não é uma bebida.
No Rio Grande do Sul e nos países cisplatinos, ninguém toma mate porque tem sede.
É mais um costume, como coçar-se.
O mate faz exatamente o contrário da televisão: te faz conversar se estás com alguém e te faz pensar quando estás solito.
O mate ou chimarrão é feito com a erva mate, a qual é encontrada principalmente no sul do Brasil e norte da Argentina.
É uma bebida genuinamente nativa, sendo o mais antigo e tradicional dos hábitos gauchescos.
É um legado dos índios Guaranis e esse costume foi fortalecido e expandido pelos espanhóis e jesuítas.
Quando chega alguém na tua casa, a primeira frase é “buenas” e a segunda é: vamos matear?
Isto se passa em todas as casas, seja de rico ou de pobre.
Passa entre mulheres e homens, velhos ou jovens.
É a única bebida compartilhada entre pais e filhos sem discussão e onde ninguém “enche a cara”. Chimangos ou maragatos, gremistas ou colorados cevam mate sem entreveros. No inverno ou no verão
É a única coisa em que nos parecemos vítimas e carrascos; bons e maus.
Quando tens um filho, começas a dar mate quando ele te pede.
Se o dá morno com algum açúcar, se sentem grandes.
E tu sentes um orgulho enorme quando um piazito teu começa a chupar o mate, parece que o coração te sai do corpo.
Depois com os anos, eles elegem se o tomam amargo ou doce, muito quente ou tererê, com casca de laranja ou limão ou ainda com alguma planta medicinal misturada à erva.
Quando conheces alguém e não tens confiança, ao convidá-lo para um mate perguntas:
-Doce ou amargo?
E se o outro responde:
-Como tu tomas
É um bom sinal.
Nas casas do Rio Grande do Sul sempre há erva mate.
A erva é a única que há sempre, com inflação, com fome, com militares, com democracia, com “mensalões”, ou com quaisquer de nossas pestes e maldições eternas. E se um dia não houver, um vizinho têm e te dá, pois a erva não se nega a ninguém.
O Rio Grande do Sul é um dos poucos lugares do mundo onde a transformação de uma criança para um homem ocorre num dia em particular.
Esse dia não é o dia em começastes a fumar, ou usar calças, ou quando fizestes circuncisão, ou entrasse para a universidade ou começou a viver longe dos pais.
Começamos a ser grandes no dia que temos a necessidade de tomar, pela primeira vez, um mate solito.
Não é casualidade. No dia que uma criança põe a chaleira no fogo e toma seu primeiro mate sem que haja nada em casa, nesse minuto é que descobre que tem alma.
Ou está morto de medo, ou está morto de amor, ou algo: porém não é um dia qualquer.
Poucos são os que se recordam desse dia, mas em todos há uma revolução por dentro a partir desse dia.
O simples mate é nada mais nada menos que uma demonstração de valores.
É a solidariedade de bancar o mate lavado porque a charla é boa. A charla, não o mate.
É o respeito pelos tempos para falar e escutar, tu falas enquanto o outro toma, até que num momento dizes:
-Basta, troca a erva !
É a obrigação de dizer obrigado ao menos uma vez ao dia.
É a atitude ética, franca e leal de encontrar-se sem maiores pretensões, de compartilhar.

4 comentários:

Isa disse...

Que interessante!
Ñ conhecia,ñ sabia nada sobre este assunto.
Beijo.
isa.

manuel marques disse...

Muito interessante,desconhecia.

Beijo.

Manuel Luis disse...

Doce ou amargo? Ao teu gosto!
Tu falas, eu escuto as histórias enquanto brindamos as boas festas com muita felicidade.
Beijo

Anônimo disse...

Lindo demais! Sou paulista, mas admiro e amo muita esta gente valorosa do Rio Grande do Sul! Quem estuda a História deste povo se impressiona com os seus feitos! Sou mestre em História pela UNESP e meu pós-mestrado e doutorado será sobre e História dos gaúchos!

Abraços desde São Paulo, "indiada buenacha" (como dizem meus amigos e amigas gaúchos)!

Mas que barbaridade, tchê!

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